JULIANA TESSER [@JulianaTesser]
de São Paulo
Há exatamente uma semana, Victor Martins, que também atende por chefe, chegou à redação virtual do Grande Prêmio perguntando se eu já tinha visitado o Rio de Janeiro. Contei a ele que sim, na minha viagem de formatura da oitava série (o que, na prática, foi quase no mês passado). Foi um daqueles passeios fajutos que a gente faz com o colégio e que, no meu caso, resultou em uma ida à Búzios e Cabo Frio com direito a uma rápida parada no Rio.
Não, ninguém nunca me contou que nós iríamos ao Pão de Açúcar e não ao Cristo Redentor. Eu teria protestado! Mas isso não vem ao caso…
Foi então que o chefe me contou que eu iria para o Rio cobrir a etapa carioca da F-Truck. Achei legal ir conhecer Jacarepaguá antes de destruírem o circuito (o que eu acho uma tremenda sacanagem, idiotice, pilantragem, e etc.), além de acompanhar uma categoria da qual eu já havia escutado muitos elogios – inclusive do meu irmão.
Cheguei em terras cariocas na sexta-feira e fui direto para o autódromo. Depois de acompanhar os treinos livres, estive no box da Ford para conversar com o Djalma Fogaça. O Danilo Dirani tinha sofrido um acidente no segundo treino livre que danificou bastante o caminhão, mas o chefe do time estava confiante de que poderiam correr.
No sábado foi a vez de conversar com Neusa Navarro Félix, presidente da categoria, acompanhar o último treino livre e a sessão classificatória que, além da pole do estreante Christian Fittipaldi, provou que Fogaça estava certo, já que Dirani colocou o caminhão 70 na terceira colocação do grid.
E aí chegou o domingo. Dia de corrida é sempre o mais divertido. E corrido também. O dia começou com uma entrevista com a Talula, a modelo que foi do BBB e que hoje guia o Pace Truck. A conversa, claro, contou com uma aprovação recorde de um membro da redação, mas eu não posso dizer quem foi.
E aí eu estava lá, quietinha trabalhando, quando recebi um convite da assessoria da F-Truck para pegar uma carona em um dos caminhões durante o show. Achei uma ideia bem legal. Eu nunca tinha andado em um carro/ caminhão de corrida. Topei, claro.

Era quase meio dia quando vieram buscar a mim e a Karina, jornalista que também participou desta aventura, para irmos para o caminhão. Na saída do ônibus de imprensa nós conhecemos o Juninho, filho do Aurélio e da Neusa, que deram vida à categoria. O mais novo da família Navarro Félix era um dos pilotos que guiaria um dos três caminhões que participam do show.
Minha primeira reação foi perguntar se ele sabia mesmo fazer aquilo. Ele sorriu e eu achei melhor ficar quieta antes que ele decidisse descontar na pista quando eu estivesse no caminhão.
Quando estávamos todos na pista, o Juninho e suas irmãs Dani e Gabi, foram para o circuito verificar os pneus dos caminhões. Eu achei isso ótimo, segurança em primeiro lugar.
Só que ali eles já deram uma mostra do que vinha pela frente. Eu pensei em sair correndo e me esconder pela próxima meia hora, mas achei que seria indelicado.
Entrei no caminhão do Juninho, coloquei o cinto e fiquei pensando: ‘Ai, Deus, onde eu fui me enfiar?!’.
Quando ele entrou no caminhão e começou a se preparar, eu tive mais uma das minhas ideias brilhantes:
- Você faz isso há muito tempo?
- Ah, faço. Desde os 12 anos.
Eu não sei quantos anos ele tem e confesso que tive medo de perguntar. Vai que ele me responde menos do que eu esperava, né…
Como ‘tortura’ pouca é bobagem, quem começava o show era a Dani, seguida pela Gabi e ele em último. O que, na prática, significa que eu fiquei na pista, dentro do caminhão, assistindo tudo que aconteceria na sequência.
Antes de sairmos, foi a vez dele fazer as perguntas:
- Está com medo?
- Não, magina.
- Não, sério?
- Um pouco. (O que, aquela altura, significava muito)
Quando ele começou a acelerar, eu pensei: ‘Ah, é legal. Vai ser fácil.’ AHAM! Isso, obviamente, só durou até a primeira manobra. Eu nunca soube que um ser humano podia tremer tanto. Fechei o olho e não vi nada nos primeiros minutos, mas isso, lógico, não ajudou em nada. Eu logo percebi que aquela história de que o que os olhos não veem, o coração não sente é uma das maiores lorotas da história da humanidade. Sente, sim senhor.
Aí eu pensei: ‘Bom, já que eu estou aqui, melhor aproveitar.’ Abri o olho e cada vez que via ele perto do murinho da pista de Jacarepaguá, eu pensava: ‘Putz, ninguém cuida desse autódromo tem um tempão. Se ele erra esse negócio, alguém vai se machucar.’ O que, provavelmente, incluía eu, ele e as pessoas que estavam lá.
Ah, tinham também os fotógrafos. Eu conheci alguns deles ao longo da vida, mas nunca soube que eles eram tão irresponsáveis (palavra que ficou na minha cabeça no trajeto entre o autódromo e o aeroporto, graças a um taxista maluco e ao José Mario Dias, único fotógrafo com 100% de aproveitamento em provas de rali, como eu descobri mais tarde).
Ao invés de ficarem (teoricamente) protegidos atrás da mureta, eles insistiam em ficar bem próximos dos três caminhões. O que é uma sandice sem tamanho. E eu pensava: ‘Caramba, se ele erra, eu vou ter que escrever que alguém morreu e eu realmente não gosto de fazer isso.’
E o show continuou. Quando se aproximava do final, Juninho começou a rodar na frente da arquibancada e me distraí olhando para o lado direito. Quando olhei de volta: ‘Onde foi o rapaz que estava aqui?’
Sim, ele saiu do caminhão e foi dar um oi para as pessoas. E me deixou sozinha. Sem aviso. Com o caminhão rodando. Foi a primeira vez que eu rezei dentro do caminhão. Tenho impressão que confundi o Pai Nosso com a Ave Maria, mas acho que Deus vai me perdoar por esse lapso.
Nos primeiros instantes eu olhava para fora e não via nem sinal do garoto que deveria estar sentadinho do meu lado. Tinha muita fumaça, sabe. Quando eu finalmente o encontrei, tive a impressão de que ele estava voltando para onde nunca deveria ter saído, mas isso não aconteceu.
Eu continuava dentro do caminhão e ele lá fora. Quando vi que rezar não ia adiantar nada, me dediquei a tirar de cima de mim os pedaços de pneu que tinham entrado pela janela. Isso, claro, não serviu para nada.
De repente, eis que Juninho volta ao caminhão. O que deu um certo alívio. Não que eu não tenha confiado nele desde o início, mas depois de umas 300 horas, digo, alguns minutos dentro do caminhão, já tinha ficado mais fácil. Era, definitivamente, melhor quando ele estava controlando o caminhão.

Ele olhou com aquela cara de que nada tinha acontecido e eu até pensei em reclamar, mas, como eu ainda estava dentro do caminhão e no meio da pista, achei que era mais conveniente ficar calada.
E o show continuou. Naquela altura tudo já estava mais simples. Eu tinha parado de tremer, embora ainda fechasse os olhos em alguns momentos, principalmente quando ele ia perto demais da parede. Levei mais um único susto: quando ele e a Dani decidiram brincar de bate-bate. (Eu sempre gostei de bate-bate, mas daquele que eu brincava no Playcenter quando era criança. Esse de Jacarepaguá pareceu mais com aquela cena do Pearl Harbor quando o Rafe e o Danny decidem ver ‘quem aguenta mais com esses japas’. E, sim, eu me sentia o japonês).
O tempo todo você sabe que eles não vão errar (ou, pelo menos, torce), mas dá medo do mesmo jeito. E eu nunca vou acreditar em alguém que diga que não dá. Dá medo, e pronto.
Eu até pensei em perguntar se eles já tinham errado alguma vez, mas, de novo, achei melhor ficar quietinha e não desconcentrá-lo. (Soube mais tarde que eles nunca erraram, só tiveram uns toques e uns retrovisores arrancados.)
Acho que o show durou mais uns cinco minutinhos – numa medida até que realista – e aí fomos parar o caminhão. Bom, se nós tínhamos sobrevivido aos 25 minutos de show (acho que foi isso que durou), não ia ser na hora de estacionar que teríamos problemas.
Depois de um tempão pensando que aquela porta iria abrir a qualquer momento e alguém teria que contar aos meus pais que eu tinha virado patê, eu percebi que eu não fazia a menor ideia como sair do caminhão. O Juninho me explicou e quando eu saí encontrei com a Karina, que também voltava do passeio com a Dani.
Logo que saímos do caminhão, algumas pessoas pararam o Juninho para tirar foto com ele. Eu esperei, agradeci pelo passeio e saí correndo para ligar para casa e contar que eu estava bem. (Tenho certeza que minha mãe rezou mais do que eu.)
Depois eu voltei para o ônibus de imprensa para acompanhar a corrida e escrever o texto pro Grande Prêmio.
Ah, sim. Eu esqueci de contar que durante todo o tempo em que eu estive no caminhão, eu fiquei me segurando na porta e no banco. Deve ser por isso que hoje eu mal consigo mexer o braço.
Contando assim, pode parecer que a carona foi uma tortura e que eu me arrependi de ter ido. Bom, se você acha isso, entendeu tudo errado. Eu me diverti para caramba. Só me resta agradecer a F-Truck pelo convite e ao Juninho por ter deixado eu voltar inteira para casa. Valeu!