Nem tudo está perdido

FERNANDO SILVA [@Fernando_Silva7]
de Sumaré

Quem acompanha o automobilismo sabe que nos últimos anos o esporte foi o centro de muitos episódios polêmicos e cheio de atitudes antidesportivas. Escândalos, batidas propositais, jogos de equipe, sabotagens e tudo mais. Isso falando só de F1, sem contar tudo o que acontece nas bandas desse Brasil varonil, fatos que já foram bem expostos aqui no Grande Prêmio nos últimos tempos.

Mas nem tudo está perdido. Guilherme Spinelli e Youssef Haddad, atuais bicampeões do Rali dos Sertões, vinham fazendo um grande Dakar e reuniam boas chances de figurar novamente no grupo dos dez melhores da competição. Com exceção dos problemas enfrentados na terceira especial, entre as cidades argentinas de San Rafael e San Juan, o duo brasileiro vinha em ritmo bastante consistente.

Até que chegou o dia de encarar as temidas dunas de Fiambalá, ainda na Argentina, em uma especial que já tirou as chances de vitória de Carlos Sainz em duas oportunidades, 2009 e 2011. Mas o azar de Spinelli e Haddad foi uma falha na bateria de seu Mitsubishi Lancer no km 95 da especial. Não havia condições de seguir. Até que a dupla recebeu a ajuda da equipe de apoio para substituir a peça, sendo possível assim a chegada até o destino final, com quase sete horas de atraso.

O regulamento do Dakar é muito rígido nesses casos. Ajuda externa só é permitida quando vem de outro competidor. Não por acaso, as maiores equipes fazem uso do ‘mochileiro’ (termo muito usado na Argentina), que são pilotos que disputam o rali, mas largam mais pesados por portarem peças sobressalentes que serão usadas pelo primeiro piloto em caso de alguma falha no equipamento. Ajuda da equipe de apoio ou mesmo de um transeunte? Nem pensar.

Em teoria, uma situação como essa passaria despercebida pela organização da prova, com tantas coisas para cuidar em uma competição gigantesca como é o Dakar. Mas Spinelli abriu o jogo de maneira que surpreendeu o presidente do corpo dos comissários do rali, Josep Besoli.

“Ele nos procurou, com lágrimas nos olhos, com uma carta em que comunicava seu abandono, por assistência irregular. É a primeira vez em 36 anos que eu vejo algo assim. Seria fantástico se pudéssemos convidá-lo no ano que vem. Deveria ser um exemplo para o resto dos competidores”, afirmou o dirigente, emocionado com o gesto do brasileiro.

Em um dos trechos da carta entregue a Besoli, Spinelli explicou: “Sei que ninguém me viu, mas não posso fazer isso. Não poderia aceitar terminar o Dakar trapaceando. Não poderia dormir com isso. A honestidade é a minha prioridade e única motivação”, escreveu o piloto.

O episódio chamou tanto a atenção que foi destaque de vários jornais argentinos e também do espanhol Marca. Após receber várias mensagens de apoio, Guiga agradeceu a todos em sua conta no Facebook.

“Nossa atitude foi simplesmente a única que podíamos tomar numa situação dessas. Sem dúvida eu e toda a equipe Mitsubishi Brasil ficamos muito felizes de poder ter despertado esse sentimento de justiça, honestidade, caráter e humildade. Foi muito bom sermos vistos pela elite do rally mundial, pelo rally brasileiro e pelas pessoas em geral como um exemplo a ser seguido. Não tomamos essa decisão com essa intenção, mas se despertarmos esse sentimento ficamos ainda mais felizes com a nossa decisão.”

Atos como esse são cada vez mais raros em um ambiente cruel e competitivo [às vezes injusto também] como é o automobilismo, como é o esporte em si, sobretudo nos últimos tempos. Depois de praticamente um ano inteiro trabalhando no projeto Dakar, Spinelli e Youssef deixam a prova, sem chegar ao final, é verdade, mas dando uma verdadeira lição. Uma lição de espírito esportivo.

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13 respostas a Nem tudo está perdido

  1. João Ferreria disse:

    Parabéns pela atitude da equipe, mas bem que a organização podiam deixar ser legal esta ajuda, mas que recebam uma punição pesada, caso aconteça, acrescentando um tempo de punição na cronometragem ou atrasando sua largada para a próxima etapa, sei lá…

    Contudo, um grande exemplo e nas próximas competições terão mais sorte, parabéns mais uma vez…

  2. wagner disse:

    Atitude digna de campeões, tanto por parte do Spinelli, bem como do Youssef, demonstrando muito carater e honestidade para com eles mesmos e com os outros participantes. Parabéns!!!!!!!!!!

  3. Wallace disse:

    Num País que tem capital do Roubo e que se usa terno preto para parecer “honesto”,
    É um gesto de grandiosa decência e respeito próprio, já admirava esta dupla, agora vou
    Idolatrar. É muito orgulho saber que existe algum brasileiro com o espírito de cidadão e
    competidor leal, principalmente com sigo mesmo. É como ele disse, ninguém viu, mas
    não poderia dormir com isso. A grandiosidade de um competidor esta na sua lealdade com
    a competição, outros competidores e ele próprio. Deixo me abraço de orgulho ao Spinelli e Haddad, continuem sempre sendo orgulhosos de suas atitudes esportivas. As vitórias virão sempre com mais sabor.
    PARABÉNS POR SER AS PESSOAS E CIDADÃOS QUE SÃO, NOS ORGULHAMOS MUITO DE VOCÊS INDEPENDENTE DE RESULTADO. FIQUEI EMOCIONADO COM ESSA ATITUDE.

  4. Luiz Ronaldo disse:

    E infelizmente, esse tipo de atitude não vem ao conhecimento do grande público, primeiro graças à total falta de interesse da mídia esportiva em geral pelo Dakar, segundo porque essa notícia “não vende”.

    Parabéns Spinelli e Yousseff.

  5. carlos souto disse:

    Parabens pela atitude honestidade e etica não tem preço

  6. Thaddeu disse:

    Agora é ir lá no dicionário e acrescentar o nome deles na definição da palavra “esportista”.

  7. Rodrigo Moreira Vargas Porto disse:

    É o que eu sempre digo. Valores que edificam o ser humano só se aprende em casa. Coisa que o fdp motorista de um Fiesta prata não teve. Exemplo a ser seguido por todos os esportistas brasileiros.

  8. Alex Sier disse:

    Parabéns, Spinelli e Youssef!
    Nente mundo em que vivemos não é fácil ser exceção à regra.
    No esporte de alta competição, infelizmente a ética, o caráter e os bons valores morais passam longe de alguns competidores (vide Schumacher, Alonso…).

    A vitória que vocês alcançaram com esta atitude nunca será esquecida!

  9. José Benedito Vizioli Libório disse:

    “Gentlemen drivers” pode ser bem um termo que se aplique a ambos. Pessoas que são cavalheiros e que colocam os valores acima de qualquer coisa. Infelizmente uma raridade…
    Parabéns a ambos!

  10. Luiz Ronaldo disse:

    Tenso é um dia depois ver o Cyril Deprés dar um exemplo de extremo oposto, ao ser ajudado a desatolar e mandar seu bem-feito às favas depoisr

  11. Gustavo disse:

    Espirito esportivo e dignidade…..parabéns a dupla da Mitsubishi…..
    E Lembramos que o Dacar é feito de pessoas assim. Vendo por um mesmo lado de esportividade e mais ainda, de respeito a vida, lembram do episódio do ano passado com o Marc Coma nas motos….que mesmo vendo sua vantagem para o francês Despres cair, parou para ajudar um colega que sofreu um acidente e estava desmaiado, ajudou o colega e esperou uma equipe de resgate chegar para continuar a prova……Se não me engano ele perdeu a liderança do Dacar para o Despres naquela etapa e no final retomou a ponta e garantiu o título……Mesmo envolvendo muita grana, o Dacar ainda mostra que ali é o esporte puro e simples….sem politica e dinheiro falando mais alto…..ali chegar ao final já é uma vitória…

  12. Vagner "Ligeiro" disse:

    Peguei este link no Jalopnik e acabei vindo para cá conhecer esta história. Conheço amigos que são honestos, colegas que não mereciam muita atenção por pensar mais por eles do que pelos outros… mas essa história mostra o quão legal é um esporte. E quão legal são muitos brasileiros como eles :D

    Excelente história, excelentes pessoas :) Espero que no próximo Dakar eles se destaquem com uma vitória ou pelo menos o término da prova e tenham também mais sorte e menos problemas com os carros :)

  13. Eloizio Henrique M. Dantas disse:

    …esses sim são verdadeiros campeões, manter essa postura em um ambiente onde a desonestidade é o modelo adotado, e muito mais, de um país que ser desonesto é o exemplo mais forte. Podem não ter ganhado a corrida, mas certamente foram vencedores, pois fizeram história por ser honesto, afinal 36 anos não são 36 dias.

    Parabéns a equipe Mitsubishi Brasil. E obrigado por nos muito bem representar, e poder dizer, orgulho de ser Brasileiro.

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